Recentemente, Laerte Coutinho – cartunista, mulher trans e importante figura da cultura brasileira – tornou público seu diagnóstico de câncer de próstata aos 72 anos de idade. O tema ganhou enorme repercussão nas redes sociais após Laerte, em entrevista à Folha de S. Paulo, destacar:
“Mulheres trans precisam entender que possuem próstata.”
Ainda hoje, tanto dentro do sistema de saúde quanto da própria comunidade LGBTQIA+, esse tema permanece cercado de desconhecimento. Isso reflete um histórico de estigma, silêncio e negligência no cuidado da população trans.
Ao compartilhar que seu exame de PSA havia apresentado alterações, Laerte abriu uma conversa muitas vezes evitada, seja por falta de informação, barreiras médicas, transfobia ou pelo mito de que a transição elimina a necessidade de cuidados relacionados à próstata.
Sim, mulheres trans podem ter câncer de próstata
Todas as pessoas que nasceram com próstata – incluindo as mulheres trans e as pessoas transfemininas – possuem essa glândula, mesmo após a cirurgia de redesignação sexual. E, apesar de a terapia hormonal com estrogênio diminuir significativamente os níveis de testosterona, a próstata permanece funcional, embora reduzida.
O que isso significa?
Que o risco de câncer existe, apesar de ser potencialmente menor por causa da supressão hormonal.
Estudos internacionais indicam que:
- O uso de estrogênio pode diminuir o risco, mas não o elimina.
- A evolução do câncer pode ser mais lenta, devido à menor atividade hormonal.
- Os sintomas podem ser atípicos, o que torna o rastreio periódico ainda mais importante.
Tratamento e prognóstico
Quando diagnosticado precocemente, o câncer de próstata tem alto potencial de cura. Para mulheres trans, o tratamento segue os mesmos princípios utilizados em homens cis – como cirurgia, radioterapia, acompanhamento ativo ou terapias hormonais oncológicas – mas adaptado ao uso prévio de estrogênio e ao impacto na qualidade de vida.
A terapia hormonal feminizante pode retardar a progressão do tumor, porém não substitui o tratamento indicado. O prognóstico depende principalmente do estágio do câncer no diagnóstico, não da identidade de gênero. O diagnóstico precoce pode significar um tratamento mais eficaz, menos invasivo e com melhores resultados.
Silêncio médico e invisibilidade no envelhecimento
A discussão provocada por Laerte também expõe um problema maior: a saúde trans no envelhecimento quase não existe como pauta pública no Brasil.
Num país onde, segundo a ANTRA, a expectativa de vida de pessoas trans gira em torno de 35 anos, os cuidados de meia-idade – como rastreamento de câncer – raramente entram na agenda. Quando uma parcela significativa da comunidade enfrenta violência, expulsão familiar, desemprego e precarização, os exames preventivos podem parecer uma preocupação distante.
Porém, mesmo quando têm consciência da necessidade de prevenção, muitas mulheres trans relatam medo, vergonha ou experiências de violência institucional, especialmente em consultas geniturinárias. Esse medo não é infundado. Segundo a psicanalista trans Letícia Lanz, à Folha de São Paulo:
“No Brasil, não há nenhuma faculdade de medicina que inclua o estudo de gênero como parte obrigatória do currículo. A maioria dos médicos se forma sem conhecimento adequado sobre gênero e suas implicações na prática médica.”
O diagnóstico de Laerte não é, assim, apenas um alerta clínico: é um espelho para o sistema de saúde, que precisa de reformas urgentes. As pessoas trans têm o direito não só de envelhecer, como de fazê-lo com saúde e dignidade.
Como a Vivuna apoia a saúde das mulheres trans no Brasil
Na Vivuna, trabalhamos com um modelo de cuidado afirmativo, seguro e embasado em evidências científicas. Isso inclui:
- Profissionais capacitados em saúde trans
- Terapia hormonal segura
- Comunicação respeitosa, sem julgamento
- Conteúdos educativos e acessíveis
Nosso compromisso é garantir que as pessoas trans possam cuidar da própria saúde sem medo, constrangimento ou desinformação.
O que fazer se você se identificou com esta conversa
Se você for mulher trans e:
- Tiver 50 anos ou mais
- Tiver 45 anos ou mais, com histórico familiar de câncer de próstata ou ascendência negra
- Perceber alterações urinárias
Converse com um profissional capacitado. Podem ser indicados:
- Exame de PSA
- Toque retal (quando clinicamente indicado)
- Ultrassom ou ressonância
A prevenção não deve ser adiada. Se você deseja orientações seguras, acolhedoras e científicas sobre prevenção, hormônios e saúde trans, a Vivuna está aqui para você.
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