Em um momento histórico, a revista Glamour estampou um homem trans grávido na capa durante o Mês do Orgulho LGBT+ deste ano. Já passou da hora de incluir homens trans e pessoas não binárias nas conversas sobre gravidez e direitos reprodutivos.
Revista Glamour estampa homem trans grávido na capa
Em junho de 2023, a revista Glamour decidiu estampar Logan Brown, um homem trans grávido, em sua capa. Embora a revista seja majoritariamente voltada ao público feminino, a Glamour afirmou que esta edição especial do Orgulho LGBT+ celebra a “aliança entre mulheres (cisgênero ou não) e pessoas trans por causa das experiências que compartilhamos”. Foi um marco e tanto.
Logan Brown é autor e pai. Ele contou sua jornada como homem grávido em seu blog Up The Duff Man (Homem Prenhe, em tradução livre). Brown recebeu comentários odiosos, que afirmavam falsamente que homens não podem engravidar. Mas ele está aqui para deixar uma coisa clara: “Sou um homem trans grávido e eu existo. Não importa o que digam, eu sou literalmente a prova viva.”
Brown falou à Glamour sobre sua experiência de dar à luz sua filha Nova e sobre como foi lidar com a gravidez pelo sistema de saúde britânico como homem trans. Ele compartilhou dificuldades e episódios de uso incorreto de pronomes por profissionais de saúde. Segundo Brown, treinamentos obrigatórios sobre questões LGBTQ+ deveriam fazer parte da formação médica. “Seria ótimo se [as pessoas LGBTQIA+] fossem mais incluídas, e se eu não fosse tratado como mulher.”
Apesar de ter enfrentado disforia de gênero durante a gravidez, ele chegou ao ponto de se sentir seguro como homem grávido. Ele sente “orgulho de ser trans”. Mal podemos esperar para acompanhar a jornada de Logan Brown com sua parceira e filha. Como ele afirmou, “minha filha vai crescer sabendo que sempre será amada e aceita, seja quem for.” Não há nada mais bonito do que pais amorosos e acolhedores.
Não deixe de encomendar o novo livro de Logan Brown In My Daddy’s Belly (The Miracle of Male Birth) (em tradução livre, Na Barriga do Meu Pai [O Milagre do Parto Masculino]).
Sim, homens trans e não binários grávidos existem
Os homens trans e as pessoas não binárias são frequentemente excluídas dos debates sobre gravidez, fertilidade, aborto e fertilização in vitro. Embora algumas pessoas trans sofram impacto direto das leis acerca do aborto, muitos conservadores ainda negam sua existência.
Assim como as mulheres cis, os homens trans e os indivíduos não binários podem ficar grávidos, enfrentar problemas de fertilidade e precisar de acesso a serviços de fertilização in vitro. O uso de hormônios como testosterona pode causar infertilidade. Se quiser ter filhos biológicos, é importante pensar em congelar seus gametas antes de começar a terapia hormonal.
Porém, nem todos os homens trans e pessoas não binárias que passam pelo tratamento de afirmação de gênero são inférteis. Embora muitas pessoas trans optem pela histerectomia, removendo cirurgicamente o útero, algumas escolhem manter e ainda desejam engravidar um dia.
Essa decisão pessoal não invalida a identidade de ninguém. Homens trans continuam sendo homens, tenham ou não útero, queiram ou não gerar filhos. Em casos de gravidez indesejada, homens trans e pessoas não binárias também devem ter o direito e o acesso igualitário ao aborto.
Direito reprodutivos nos EUA
Em junho de 2022, a Suprema Corte dos EUA revogou o direito ao aborto em todos os 50 estados. A decisão retirou o direito constitucional ao aborto no país. Vários estados dos EUA já baniram oficialmente o aborto, e é provável que mais sigam o mesmo caminho. Para acompanhar o status de cada estado e suas leis acerca do aborto, visite o site do The New York Times.
Um dos aspectos mais preocupantes dessa decisão foi a exclusão de pessoas trans e não binárias do debate, apesar de também poderem engravidar. Já é difícil encontrar profissionais de saúde ou clínicas com acolhimento trans, que dirá acesso seguro e acessível a aborto para pessoas trans. Mas tirar esse direito básico tanto de pessoas trans quanto de pessoas cis é simplesmente desumano. Proibições de aborto afetam homens trans e pessoas não binárias, e eles precisam ser incluídos nessas conversas.
Linguagem neutra e inclusiva
Muitos conservadores questionaram se deveríamos usar linguagem neutra ao falar sobre aborto. Em vez de acolhimento, homens trans e pessoas não binárias encontram exclusão e divisão. Termos como “pessoas grávidas”, “pessoas que menstruam” ou “pessoas com útero” não apagam a vivência das mulheres.
Podemos reconhecer que o aborto afeta principalmente as mulheres e ainda assim usar linguagem inclusiva para pessoas trans. Uma coisa não invalida a outra. Sistemas patriarcais discriminam também pessoas trans e não binárias. Achar que aborto é uma pauta exclusiva de mulheres é falso e transfóbico.
Com um número significativo de jovens se identificando como trans ou não binários, é ainda mais importante garantir que debates sobre gravidez e aborto sejam inclusivos para pessoas trans. As pessoas trans podem engravidar e também precisam de acesso a abortos seguros.
De acordo com a Pesquisa Trans dos EUA de 2015, as pessoas trans estão mais propensas a viver na pobreza. Isso dificulta ainda mais que consigam viajar para realizar um aborto com segurança. Além disso, as clínicas que oferecem o serviço podem discriminar pacientes trans, reduzindo ainda mais suas opções de acesso nos Estados Unidos.
Esperamos que a Suprema Corte dos EUA restabeleça o direito ao aborto em todo o país após a aprovação na Câmara. O aborto deve ser acessível a todos. É também muito importante usarmos uma linguagem mais neutra e inclusiva ao falar sobre gravidez. Homens e pessoas não binárias PODEM engravidar e merecem ser reconhecidos por isso.