Não moro em capital: como encontrar atendimento para iniciar a terapia hormonal

Sumário

A jornada de afirmação de gênero é, antes de tudo, um ato de imensa coragem e de amor pela própria vida. Muitas vezes, a urgência de se reconhecer no espelho, de existir de forma autêntica e de silenciar as angústias faz com que a hormonização autogerida seja a única alternativa possível naquele momento.

Muitas pessoas trans crescem ouvindo, de forma direta ou indireta, que a saída frente à opressão e ao preconceito é ir embora. Isso significa ir para uma capital, mudar de estado ou procurar uma cidade onde exista mais anonimato, mais serviços de saúde, mais trabalho, mais segurança e mais gente parecida. Ou seja, recomeçar a vida longe. Para algumas pessoas, esse deslocamento foi e continua sendo uma estratégia concreta de sobrevivência, afinal, às vezes, sair é o único caminho possível naquele momento.

Entretanto, essa não é uma possibilidade viável para todas as pessoas. Mudar de cidade exige dinheiro, saúde emocional, rede de apoio e alguma perspectiva mínima de recomeço, sendo que, para muita gente, nada disso está disponível. Por outro lado, a cidade onde se vive pode ser também o lugar onde estão a família, os afetos, a comunidade e tudo aquilo que tem importância. Consequentemente, permanecer no interior, em uma cidade pequena, em uma zona rural, em uma periferia ou em qualquer território distante dos grandes centros demonstra muita resiliência frente à falta de oportunidades e de acesso à saúde e a tratamentos especializados.

A terapia hormonal, também chamada de hormonização, hormonioterapia ou terapia hormonal de afirmação de gênero, é o uso acompanhado de hormônios para produzir mudanças corporais alinhadas à identidade de gênero de uma pessoa. 

Leia: O que é terapia Hormonal Feminizante? Um guia para mulheres trans e pessoas transfemininas no Brasil. 

Para exemplificar, uma pessoa trans que mora longe da capital e decide iniciar esse acompanhamento pode precisar de longas viagens, esbarrando na falta de recursos financeiros para o transporte, na incompatibilidade com os horários de trabalho e na ausência de redes de apoio locais para hospedagem e alimentação.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a hormonização integra o Processo Transexualizador, uma política pública voltada ao cuidado de pessoas trans. O problema é que a existência formal dessa diretriz não garante, de forma isolada, que ela chegue a todos os territórios. Atualmente, uma das principais barreiras é a concentração dos serviços de atenção à população trans. Segundo um levantamento publicado pela Agência Diadorim em 2025, havia apenas 27 unidades habilitadas no SUS para o Processo Transexualizador, distribuídas de forma desigual pelo país. Diante da falta de um atendimento próximo, a pessoa precisa buscar orientação na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou na Secretaria de Saúde para compreender os fluxos de encaminhamento e os possíveis deslocamentos. Logo, o acesso fica prejudicado pela própria estrutura concebida para promover a inclusão.

Em cidades menores, a dificuldade nem sempre se manifesta como a ausência total de serviços. Em muitos casos, o município dispõe de UBS, clínica particular, policlínica, centro de referência ou hospital regional, mas carece de uma equipe preparada para o acolhimento adequado. Consequentemente, ao chegar para o atendimento, a pessoa muitas vezes precisa defender o próprio nome e pronome, explicar a diferença entre o sexo atribuído ao nascer e a identidade de gênero, e até mesmo esclarecer o que significa ser travesti, mulher trans, homem trans ou pessoa não binária, além de justificar o desejo pela hormonização e o tempo que se entende dessa forma.

Assim, a consulta, que deveria ser um espaço de cuidado, transforma-se em um ambiente de autoexplicação e defesa da própria identidade. Em vez de receber a atenção adequada à saúde, a pessoa se sente pressionada a ensinar conceitos básicos aos profissionais, o que gera um cansaço intenso e desestimula a continuidade do tratamento acompanhado. Esse desgaste se aprofunda ainda mais em cidades pequenas, onde o anonimato é menor. Nesses locais, ir a um serviço de saúde ou a um laboratório pode implicar o encontro com pessoas conhecidas ou o risco de receber atendimento de alguém que tem laços com a sua família, a sua vizinhança, o seu trabalho ou a sua comunidade. Tudo isso resulta em um medo constante de sofrer julgamentos por simplesmente exercer a própria identidade.

Por fim, quando o sistema de saúde não oferece acolhimento ou não se mostra acessível, muitas pessoas trans acabam recorrendo a outros caminhos. Essa busca por alternativas inclui o amparo em indicações informais, vídeos em redes sociais e fóruns na internet, levando, frequentemente, à compra de medicamentos sem acompanhamento profissional ou à manutenção de doses sugeridas por amigos e conhecidos.

Leia também: Automedicação hormonal na comunidade trans: riscos e cuidados

O estudo “Corpos do desejo“, publicado em 2024, revelou que cerca de 72% das mulheres trans e travestis pesquisadas em cinco capitais brasileiras utilizavam hormônios sem qualquer orientação médica. Esse alto índice levanta uma reflexão crucial: se a falta de acompanhamento é tão expressiva nos grandes centros, é evidente que a distância territorial agrava ainda mais as barreiras de acesso. Resta, contudo, a urgência de pesquisas que comparem diretamente essa realidade das metrópoles com a vivência no interior, nas zonas rurais e nas periferias.

Para quem não vive nas capitais, existem caminhos possíveis para tentar contornar a falta de serviços próximos e iniciar a terapia hormonal com mais segurança:

  • Comece pela Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de você:

Sendo a porta de entrada do SUS, a UBS tem o dever de acolher a demanda, respeitar o nome social e registrar o atendimento. Mesmo que a equipe desconheça o fluxo municipal ou estadual para pessoas trans, é importante solicitar que o pedido seja formalizado. Nesse momento, vale perguntar sobre a existência de ambulatórios especializados, serviços LGBTI+, centros de referência, policlínicas ou hospitais universitários na região.

  • Entre em contato com a Secretaria de Saúde do seu município ou estado em que você reside:

Caso a UBS não tenha informações claras, as secretarias (especialmente nos setores de equidade, regulação ou ouvidoria) precisam orientar sobre o Processo Transexualizador. Na ausência total de serviços locais, é fundamental solicitar o Tratamento Fora de Domicílio (TFD). Esse recurso do SUS permite o encaminhamento para outra cidade e, dependendo da regulação local, pode oferecer apoio logístico e financeiro para o deslocamento.

  • Participe de diálogos com as redes de apoio da região:

As redes de indicação são importantes nesse processo. Você pode entrar em grupos de Whatsapp sobre o tema ou procurar Conselhos Municipais ou Organizações da Sociedade Civil que atuam com a comunidade LGBTI+. Em geral, conversar com outras pessoas trans ajuda a mapear profissionais com preparo e a evitar espaços que já reproduziram violências. Contudo, qualquer indicação exige avaliação crítica. Um atendimento ético garante respeito à identidade, solicita exames adequados, explica os riscos, não faz promessas irreais de mudanças rápidas e, acima de tudo, não exige comprovações de sofrimento ou disforia para validar a necessidade da terapia hormonal.

Saiba mais: Exames para TH: o que você precisa saber e por que eles existem para cuidar de você

  • Você pode, também, considerar a telemedicina e programas especializados

O teleatendimento tornou-se uma ferramenta viável por meio de clínicas e organizações voltadas à saúde trans, como a Vivuna. As consultas on-line podem ser mais acessíveis, orientam sobre os exames iniciais e as doses corretas, além de possibilitarem a teleinterconsulta, que é o suporte à distância para profissionais da UBS local que não tenham experiência prévia no tema. É indispensável, porém, verificar se a profissional tem registro ativo e certificar-se de que o serviço on-line oferece acompanhamento contínuo e orientações claras para casos de urgência.

Se você conseguir marcar uma consulta, presencial ou on-line, pode ser útil chegar com algumas informações organizadas.

Para otimizar a consulta, seja presencial ou on-line, é útil levar dados organizados, como histórico de saúde familiar, uso de substâncias, alergias, exames recentes e objetivos com o tratamento. Caso a hormonização já tenha sido iniciada sem prescrição, essa informação, bem como a quantidade de tempo e quais medicamentos, devem ser compartilhados com a equipe médica de forma transparente. Um bom acompanhamento não utiliza esse relato para julgar ou negar atendimento, mas atua na perspectiva da redução de danos para garantir que o processo continue com acolhimento e segurança.

A jornada de afirmação de gênero é, antes de tudo, um ato de imensa coragem e de amor pela própria vida. Muitas vezes, a urgência de se reconhecer no espelho, de existir de forma autêntica e de silenciar as angústias faz com que a hormonização autogerida seja a única alternativa possível naquele momento. Se essa é a realidade que atravessa a sua história, saiba que não há motivos para carregar culpa, medo ou vergonha. Você fez o que estava ao seu alcance, com os recursos que possuía, para garantir a sua sobrevivência, o seu bem-estar e a sua dignidade. Por isso, contar com profissionais éticos é, no fundo, fortalecer a sua rede de apoio. Esses espaços de escuta e afeto, permitem que a sua jornada deixe de ser um exercício exaustivo de sobrevivência e que você floresça com plenitude e viva em abundância.

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