Quando se trata de identidade de gênero, muitas pessoas estão familiarizadas com o sistema binário de “mulher” e “homem”. Mas o que acontece quando alguém não se identifica com nenhuma das duas? É aí que entram as identidades não binárias. E dentro dessa categoria mais abrangente, existe uma identidade que ainda é pouco representada e mal compreendida: a agênero.
Na Vivuna, acreditamos em tornar a diversidade de gênero fácil de entender e acessível para todas as pessoas. Por isso, criamos este guia completo: “O que significa agênero?”. E, para dar vida a esse tema, conversamos com uma pessoa agênero real, Nessie Avery, que nos fez a gentileza de compartilhar sua jornada de descoberta da própria identidade.
Se você estiver explorando sua própria identidade de gênero, tiver uma pessoa querida para apoiar ou simplesmente tiver curiosidade, este guia vai ajudar você a entender o significado de agênero, suas diferenças em relação a outras identidades de gênero e por que a aceitação e a visibilidade são tão importantes.
Definição rápida: o que agênero significa?
Agênero é um termo usado para descrever alguém que se identifica com a ausência do gênero. Isso significa que a pessoa não sente conexão nem com as categorias tradicionais de homem ou mulher, nem com algo entre esses dois polos. Em alguns casos, pessoas agênero se descrevem como sem gênero ou neutras em relação ao gênero.
De acordo com o dicionário:
Agênero (adjetivo de dois gêneros e de dois números) – Que não se identifica com um gênero específico; que não tem identidade de gênero. Pessoas agênero podem se ver como nem masculinas nem femininas, como ambas, ou como nenhuma das duas. Elas costumam ser descritas como livres de gênero ou neutras em relação ao gênero.
A identidade agênero é uma parte válida e importante do espectro não binário, mas ainda é muito mal compreendida. Por isso, contar histórias como a da Nessie é tão essencial, para humanizar e desmistificar o que significa ser agênero.
O que é agênero e quais são os pronomes agênero?
As pessoas agênero podem escolher pronomes com base no que for mais confortável e afirmativo para elas. Não existe um “pronome agênero” único que sirva para todo mundo.
Alguns pronomes comumente usados por pessoas agênero incluem:
- Elu
- Ela
- Ele
Outras pessoas podem usar outros neopronomes, como ile, ou ainda evitar o uso de pronomes completamente.
Dica: nunca presuma nada. Se você não tiver certeza, pergunte educadamente: “Quais pronomes você usa?”
A história de Nessie Avery: crescendo sem gênero
“Eu sou a Nessie, tenho 23 anos e sou agênero.
Então, o que é agênero?”
Você não perceberia só olhando para mim. Tenho cabelo longo, na altura da cintura, traços femininos, e minha voz é mais suave e com um tom mais agudo. Para o mundo exterior, eu sou uma mulher. Mas o que é agênero?
Infância e papéis de gênero
Cresci em um lar religioso e autoritário, de valores tradicionais. Fomos ensinados que Deus criou os seres humanos exclusivamente como homens e mulheres. Fui ensinada que qualquer pessoa transgênero, não binária ou que não se conformasse com o gênero atribuído a ela era confusa, psicologicamente traumatizada e precisava de terapia.
Junto com essas suposições, vinham expectativas de papéis de gênero rígidos: o homem era o chefe da casa e as mulheres deviam se submeter a ele. As mulheres eram cuidadoras e mães, enquanto o pai deveria ser o provedor.
Meus irmãos eram incentivados a ir às aulas de judô todas as quartas-feiras, mas apesar do meu interesse e entusiasmo por artes marciais, não me deixavam. Em vez disso, me ensinaram a passar roupa. É algo importante de se saber – mas, curiosamente, não lembro dos meus irmãos terem aprendido a passar.
Descobrindo a identidade agênero
Infelizmente para a jovem Nessie, eu nunca me encaixei no molde de “menina”, muito menos de “mulher”.Eu odiava usar saias e vestidos porque atrapalhavam se eu queria subir em uma árvore ou andar de bicicleta; nunca me interessei por meninos ou casamento.
Fazer o papel de “mãe” nas brincadeiras me deixava muito desconfortável. Eu tinha vontade de sumir.
No ensino fundamental, decidi que eu não era menina, que eu era mais “maria-macho”, que gostava de brincar igual os meninos. Em algum momento entre o ensino fundamental e o médio, decidi que “maria-macho” não bastava. Eu queria ser um menino de verdade.
É natural explorar sua identidade de gênero
O chato é que, para “ser um menino”, pouca coisa mudou para mim. Eu ainda usava minhas calças jeans desgastadas, camisetas e moletons. Continuava fazendo todas as “coisas de menino” que sempre fiz: correr a toda velocidade, entrar em brigas de vez em quando e fazer saltos radicais de bicicleta.
Porém, havia algumas mudanças que eu podia fazer: comecei a usar um boné vermelho para esconder meu cabelo longo. Dei a mim mesma um nome novo – Matthew. Tentei deixar minha voz mais grave e me irritava quando meu rosto ainda parecia feminino no espelho e minha voz nunca soava masculina.
Depois de um tempo, pensei “que se dane” e larguei o boné, o nome e a voz. Era muito esforço manter a fachada, e mesmo não estando feliz como menina, ainda parecia que eu estava fingindo ser um menino.
E eu sabia que, se meus pais me pegassem “sendo um menino”, eles não iriam gostar.
Encontrando a palavra da identidade
Frequentei uma escola só para meninas, o que, pensando bem, talvez tenha sido a pior escola para mim. Eu não entendia aquele ambiente estranho de maquiagem, paixonites, joias e perfumes. Nenhum dos meus interesses combinava com os das colegas, e eu era tão desajeitada socialmente que não percebia que estava sofrendo bullying.
Insistia em usar calças para a escola, o que logo me destacava como diferente. Apesar dos meus protestos, minha mãe comprava “blusas bonitas” que não abotoavam até o colarinho como as mais unissex que eu preferia. Ela até escondia minhas calças da escola às vezes para me obrigar a ir de saia.
Quase sempre eu passava o dia todo tão desconfortável e constrangida que desejava que o chão se abrisse e me engolisse. Mas eu era uma menina. Eu tinha que me acostumar.
Percebendo que eu não era cisgênero
Diversas vezes, eu disse ao meu pai: “Não quero crescer”. Isso não era totalmente verdade. O que eu queria dizer era: “Eu não quero crescer e virar mulher.” Era chocante quando a mulher no parquinho repreendia seu filho pequeno, dizendo: “Deixe a moça passar primeiro.“
Eu me sentia mal sempre que minha mãe e eu íamos fazer compras para “coisas de menina” (e não só porque eu odiava fazer compras). Se eu tinha que usar um vestido para um casamento ou evento formal, a empolgação inicial de receber atenção positiva logo dava lugar a um profundo arrependimento por não ter usado minhas calças jeans escuras, uma camisa e um blazer.
Meu rosto não parecia ser meu. Eu não sentia conexão com meu corpo. Não me sentia atraída romanticamente ou sexualmente por ninguém, então também não tinha nenhuma referência nesse sentido.
No fundo, eu não era nem menina nem menino. Eu era apenas eu: agênero (mas ainda não sabia disso). Eu nem sabia a resposta para “O que é agênero?”
Um dia, encontrei uma comunidade inclusiva de RPG on-line, focada em jogos como Dungeons & Dragons e Vampiro, a Máscara.
Lembro-me que meu primeiro pensamento ao entrar na comunidade foi: “Eca, eles fazem você escolher seus PRONOMES para entrar? Vou ficar, mas não vou deixar que me doutrinem nessa bobagem de gênero.” Marquei “Ela” e comecei a fazer amigos.
Leia mais:
Como encontrei minha resposta para “O que é agênero?”
Um desses amigos foi a primeira pessoa não binária que eu conheci, e nos demos muito bem. Jogando videogame, conversávamos sobre gênero, política e filmes, e fomos nos conhecendo.
Errei os pronomes dessa pessoa mais vezes do que quero admitir, mas éramos amigos, e eu estava determinada a aprender a usar “elu” corretamente. “Com o tempo, outre amigue não binárie entrou no grupo. Senti uma conexão imediata com elu também: gostávamos das mesmas música, ambos nos questionávamos sobre ter TDAH e éramos assexuais.
Comentei como éramos parecidos e fiz uma piada profética: “Seria engraçado se eu fosse realmente não binárie só para completar o quadro.” Na verdade, eu era agênero, só não sabia o significado e a importância disso ainda.
Agênero x não binário: qual é a diferença?
As pessoas costumam confundir agênero e não binário, então vamos esclarecer a diferença:
| Termo | Significado |
| Agênero | Identifica-se com a ausência de gênero. A pessoa pode se sentir sem gênero, neutra ou sem conexão alguma com o gênero. |
| Não binário | Termo geral para qualquer identidade de gênero que não se encaixe estritamente em homem/mulher. Inclui agênero, gênero fluido, bigênero e outras. |
Assim, agênero é uma identidade específica dentro da categoria não binária. Embora todas as pessoas agênero sejam não binárias, nem todas as pessoas não binárias são agênero.
Identidade agênero nas pesquisas científicas
Embora a visibilidade agênero esteja crescendo, a literatura científica ainda precisa se atualizar. Ainda assim, estudos recentes já começam a validar e apoiar essa identidade:
De acordo com um estudo de 2021 publicado no International Journal of Transgender Health, participantes que se identificavam como agênero relataram taxas significativamente mais altas de invisibilidade e incompreensão em comparação com pessoas trans binárias. O estudo concluiu que pessoas agênero enfrentam desafios sociais únicos devido à ampla falta de conhecimento sobre a ausência da identidade de gênero.
Outro estudo publicado na Transgender Health (2023) analisou o desenvolvimento de identidades não binárias. Ele destacou que pessoas agênero frequentemente adiam o processo de se assumir por falta de linguagem e visibilidade no discurso dominante, refletindo a experiência relatada por Nessie.
Esses estudos reforçam a importância de reconhecimento, pesquisa e representação para pessoas agênero, tanto em contextos sociais quanto clínicos.
A importância da representação
Representatividade é importante. A mídia, as escolas, as famílias e os sistemas de saúde moldam a forma como entendemos o gênero. Quando as identidades agênero são invisibilizadas ou mal representadas, as pessoas sofrem.
Assim como Nessie, muitas pessoas agênero crescem sem o vocabulário necessário para descrever o que sentem. Ganhar visibilidade ajuda as pessoas a se entenderem mais cedo e a viverem de forma mais autêntica.
Na Vivuna, acreditamos que toda identidade de gênero mereça ser vista, ouvida e respeitada.
Recursos para pessoas agênero e suas aliadas
Se você for agênero ou estiver explorando sua identidade de gênero, saiba que não está só. Seguem alguns materiais úteis:
Apoio e comunidade
- AVEN – Muitas pessoas agênero também exploram a assexualidade.
- Stonewall UK – Ativismo e apoio LGBTQ+.
Educação
- Beyond the Binary (livro), de Alok Vaid-Menon – aborda experiências não binárias e sem gênero.
- The Trevor Project – intervenção em crises e recursos para jovens LGBTQ+.
- Lista de identidades não binárias – informações extensas sobre identidades não binárias, incluindo a agênero.
Perguntas frequentes sobre a identidade agênero
Ser agênero significa se identificar com a ausência de gênero. Pessoas agênero podem se sentir sem gênero, neutras em relação ao gênero ou desconectadas das identidades de gênero tradicionais.
Sim. Todas as pessoas agênero são não binárias, mas nem todas as pessoas não binárias são agênero.
As pessoas agênero podem usar elu, ela, ele, outros neopronomes e até pronome nenhum. Sempre pergunte com respeito.
Não. Embora algumas pessoas agênero também sejam assexuais, são coisas diferentes. Agênero diz respeito à identidade de gênero; assexualidade diz respeito à atração sexual.
Use os pronomes escolhidos pela pessoa, informe-se, respeite sua identidade e defenda a inclusão sempre que possível.
Considerações finais
A história da Nessie mostra o quanto a jornada de ser agênero pode ser profundamente pessoal e transformadora. Compreender o significado de agênero vai muito além de definições – trata-se de ouvir pessoas reais, respeitar suas vivências e construir um mundo em que todo mundo se sinta seguro para ser quem é.
Na Vivuna, temos orgulho de amplificar as vozes agênero e de oferecer recursos para quem transita num mundo além do binário. Não importa se você é agênero, está se questionando ou apenas aprendendo: você tem direito de ser e estar aqui.