Legalmente sim. Hormônios como estradiol e testosterona são substâncias controladas (tarja vermelha) e a venda em farmácias exige a apresentação de receita médica.
Mas essa resposta não conta toda a história. A pergunta “preciso de receita?” geralmente vem acompanhada de outras, mais silenciosas: será que vou conseguir atendimento? Vão me respeitar? Vai demorar muito? E são essas perguntas que mostram porque tantas pessoas trans acabam buscando a terapia hormonal por conta própria, apesar de o acompanhamento médico ser tão importante.
Neste artigo, vamos entender como funciona o acesso hoje, explicar por que a automedicação ainda é uma realidade para tantas pessoas e indicar as formas mais seguras para a terapia hormonal.
O que é a terapia hormonal e como é o acesso?
A terapia hormonal é um tratamento que usa hormônios para desenvolver características físicas alinhadas à sua identidade de gênero. Para o processo de feminização, o comum é o uso de estrogênio e bloqueadores de testosterona. Para a masculinização, a administração de testosterona.
No Brasil, os hormônios são substâncias controladas e regulamentadas pela ANVISA.
Teoricamente, esses medicamentos não podem ser vendidos livremente, e a venda exige a apresentação de uma receita médica. Já o tratamento pode ser acessado por dois caminhos: o Sistema Único de Saúde (SUS) ou por serviços privados especializados.
Pelo SUS, o acesso se dá por meio do Processo Transexualizador, uma política pública instituída em 2008 (Portarias GM/MS nº 1.707 e SAS/MS nº 457) e redefinida em 2013 (Portaria GM/MS nº 2.803).
O processo contempla duas modalidades de assistência: (1) cuidados ambulatoriais, com acompanhamento por equipe multiprofissional e medicamentos para terapia hormonal; e (2) procedimentos cirúrgicos.
Mas a regulamentação, por si só, não garante acesso. Apesar de o SUS oferecer o serviço há anos e ser direito das pessoas trans, os serviços especializados são concentrados em grandes centros urbanos, com poucas vagas e capacidade limitada.
Na prática, isso resulta em filas enormes, pouca informação e meses ou até anos de espera. Por vezes, o fornecimento de medicamentos e a realização de cirurgias são inadequados e insuficientes.
Na rede privada, você pode buscar diretamente endocrinologistas ou clínicas especializadas de forma presencial. Nesse caso, você paga consultas, exames e medicamentos separadamente, o que pode ser um entrave financeiro para muitas pessoas, mesmo com plano de saúde.
É nesse cenário que a automedicação vira a única saída aparente
A automedicação não é uma escolha por falta de zelo com a própria saúde. É uma resposta a um sistema que historicamente não foi feito para incluir pessoas trans.
Um estudo realizado entre 2019 e 2021, publicado em 2024 na Revista Brasileira de Epidemiologia (Abrasco), entrevistou 1.317 participantes de cinco capitais brasileiras e mostra a dimensão do problema.
O estudo concluiu que 72% das mulheres trans e travestis usavam hormônios sem prescrição médica. Em algumas capitais, esse índice chegou a 94,7%.
A falta de informação, o desespero para ver o corpo refletir sua própria identidade e a impossibilidade de esperar anos por atendimento levam as pessoas a buscar orientação em sites, redes sociais ou com outras pessoas da comunidade. Outras, sem recursos para a rede privada, recorrem a medicamentos veterinários, cujo uso em pessoas pode provocar trombose, infarto e derrame.
A importância dos cuidados médicos
Sem cuidados, o uso de hormônios aumenta os riscos de complicações graves. Sem exames regulares, não há como monitorar a saúde do coração, do fígado ou os níveis hormonais. Fica difícil ajustar a dose conforme a resposta do corpo. Também não há como prevenir ou identificar precocemente efeitos colaterais como trombose, alterações hepáticas ou desequilíbrios hormonais.
Idealmente, a partir de uma consulta médica e uma avaliação geral da sua saúde, se não houver contraindicações, você recebe a prescrição médica mais adequada para o seu caso. Os cuidados são contínuos: exames periódicos, ajustes de dose e monitoramento de efeitos colaterais.
Um bom acompanhamento não se resume a assinar uma receita. Inclui:
- Exames regulares para monitorar sua saúde cardiovascular, hepática e níveis hormonais;
- Ajuste das doses para maximizar os resultados desejados e minimizar possíveis efeitos colaterais;
- Redução de danos, garantindo que sua terapia funcione em harmonia com seu corpo e suas necessidades.
Sem exames, não dá para saber como os hormônios estão agindo no seu corpo. Uma dosagem inadequada ou uma interação entre medicamentos pode desencadear problemas sérios sem que você perceba a tempo.
Com cuidados médicos, a terapia hormonal se torna mais segura e eficaz.
Cada corpo responde de forma diferente aos hormônios. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. A equipe médica não está ali para decidir se você “merece” ou não o tratamento. Está ali para acompanhar você no seu processo: ajustar a dose conforme sua resposta, detectar precocemente qualquer sinal de alerta e garantir que a terapia hormonal aconteça com o máximo de benefício e o mínimo de risco.
Para quem já esperou anos por um atendimento que não chega, a exigência de receita e exames pode soar como mais uma barreira. Mas um bom acompanhamento médico não serve para atrasar seu processo. Serve para que ele aconteça sem colocar sua saúde e sua vida em risco.
A Vivuna existe para facilitar o seu atendimento
Oferecemos acompanhamento médico 100% on-line, com uma equipe médica que entende de terapia hormonal e trabalha com consentimento informado. Isso significa que a equipe é sua parceira, não alguém que decide se você “merece” receber cuidados.
Nossos cuidados não partem de uma avaliação para decidir se você é “trans o suficiente”. Eles partem da sua decisão e do seu desejo de viver de acordo com a sua identidade.
Com atendimento on-line, diminuímos as filas de espera e barreiras geográficas. Você tem acesso direto a uma equipe capacitada, atualização de receitas, encaminhamentos para exames e suporte contínuo. Tudo com rigor clínico e atendimento humanizado.
A resposta para a pergunta inicial é sim. Mas a pergunta mais importante é outra: você quer começar sua terapia hormonal com segurança e com o apoio de quem realmente entende do assunto? A Vivuna está aqui para isso.