A pergunta “quantas pessoas trans existem no mundo?“ é difícil de se responder. Com a transfobia ainda tão presente globalmente, provavelmente não saberemos a resposta real até que o mundo evolua para um lugar onde as pessoas trans possam se assumir e existir com segurança na sociedade. Quando esse dia chegar, teremos uma ideia mais clara dos números naturais que ocorrem como parte da diversidade humana. Até lá, temos algumas estimativas que vão surpreender você.
Afinal, quantas pessoas trans existem?
Uma recente pesquisa do Pew Research Center (2022) mostrou que 1,6% da população adulta dos EUA se identifica como trans ou não binária. Entre o grupo mais jovem entrevistado (de 18 a 29 anos) – também o grupo que menos tende a ter preconceitos contra pessoas trans – impressionantes 5,1% se identificam com um gênero diferente daquele que lhes foi atribuído ao nascer. Considerando que é extremamente raro que uma pessoa que se identifica como trans não seja realmente trans (entre pessoas trans que fazem transição, a taxa de arrependimento gira em torno de 3%; a maioria desses casos de arrependimento está ligada à pressão social e não a deixar de ser trans), podemos presumir que esse número é preciso.
Também é importante lembrar que os EUA nem sequer são o país mais progressista em termos de inclusão trans; eles apenas têm mais dados populacionais disponíveis. Segundo uma pesquisa da Ipsos sobre o apoio público aos direitos trans (2016), os EUA estão em 9º lugar no mundo, com a Espanha, a Suécia e a Argentina liderando o ranking. Os EUA ainda têm muito o que evoluir na luta contra a transfobia, especialmente considerando que vários estados continuam a aprovar ou debater proibições ao uso de bloqueadores de puberdade e até apresentações drag. Ou seja, o número real pode ser ainda maior que 5,1%.
À medida que a transfobia diminui, os números naturais aumentam
Ainda assim, vamos usar os 5,1% como uma estimativa conservadora de quantas pessoas se identificariam como trans em um mundo livre de transfobia. O que é 5,1% de 8,1 bilhões de pessoas, a população global atual? São 413 milhões de pessoas no mundo que, potencialmente, se enquadrariam na definição ocidental de trans se pudessem se identificar assim de forma segura.
Isso também significa que, nas próximas quatro décadas – com gerações mais inclusivas substituindo as mais velhas – pelo menos 5,1% da população dos EUA provavelmente se identificará como transgênero ou não binária.
Para efeito de comparação, a população dos EUA, com sua taxa de crescimento atual, deve chegar a cerca de 383 milhões em 2064. Ou seja, aproximadamente 19,2 milhões de pessoas se identificarão como trans ou não binárias em 2064 – um aumento em relação às 1,3 milhão de hoje. Isso representa um crescimento de 13,8% (ou seja, o “índice de segurança para se assumir”) ao ano para esse grupo demográfico, considerando que a inclusão trans continue a crescer de forma constante.
Pessoas trans vieram para ficar e são cada vez mais numerosas
A maioria dos governos democráticos promete proteger os direitos das minorias. Vemos isso nos EUA com a 14ª emenda, e no Reino Unido com a Lei de Igualdade (2010).
Infelizmente, ainda é muito fácil para os políticos ignorarem ou tirarem proveito político da demonização de uma minoria com pouca representação. No entanto, a população trans está se revelando cada vez maior, crescendo junto com a inclusão e com a renovação geracional de mentalidades. As pessoas transgênero foram empurradas para as margens da sociedade por anos ou completamente ignoradas. Mas isso está mudando.
Em qual lado da história você quer estar?
Historicamente, os políticos têm há muito ignorado, invalidado e demonizado esta minoria vulnerável por ganho político. Fazem isso para agradar eleitores que ainda aceitam transfobia explícita (muitas vezes de gerações mais velhas) como forma legítima de opinião. Ainda existe uma voz poderosa de oposição à igualdade trans, assim como houve oposição ao fim da escravidão, à dessegregação racial nas escolas e à retirada da homossexualidade da lista de doenças.
Neste momento, os políticos do mundo todo têm uma escolha. Podem seguir o caminho de figuras como Orval Faubus, governador do Arkansas que, em 1957, usou a Guarda Nacional para impedir a integração de escolas após a decisão de Brown x Conselho Escola, que defendia a dessegregação. Ou podem escolher o lado da justiça, da liberdade e do amor.
A “segurança” é com frequência um pretexto para manipular a opinião pública para se opor ao progresso
Que fique a lição: No início do outono de 1957, Faubus ordenou que os guardas bloqueassem a entrada da escola central de Little Rock “para a proteção de nove alunos”, os primeiros nove estudantes afro-americanos a entrarem naquela escola na história, em uma ação contra a integração racial. Historicamente, os políticos que desejam manter a discriminação usam a “segurança” como desculpa para manipular a opinião pública para se opor ao progresso. Vemos essa mesma lógica hoje quando se trata de jovens trans.
Cabe aos políticos decidir como lidar com essa realidade. Alguns preferem trocas oportunistas – ganhos rápidos e aplausos de pessoas transfóbicas – por um legado eterno de infâmia. Outros enxergam a conjuntura melhor.
Apoie as mudanças ou manche sua reputação
No fim das contas, no que diz respeito à existência de pessoas trans, o futuro já chegou. Ele está apenas sendo revelado gradualmente. Não se trata de se isso vai acontecer, mas de quando. As pessoas trans vão conseguir toda a inclusividade, igualdade e proteção em todos os aspectos da vida.
Podemos generalizar essa afirmação para a saúde de afirmação de gênero também. Isso inclui a legalização dos bloqueadores de puberdade para os jovens trans. Significa eliminar as proibições que obrigam adolescentes trans a passarem pela puberdade errada. Significa garantir acesso total aos recursos de saúde que permitem que jovens trans vivenciem a puberdade correta, ao lado de seus colegas.
Não é uma questão de “se vai acontecer”, é uma questão de quando, principalmente com uma população deste tamanho. O tempo remove as barreiras que tentam nos afastar da verdade.