Semana da Visibilidade Bissexual, 16 a 23 de setembro de 2023
Esta semana estamos celebrando a Semana da Visibilidade Bissexual. É uma celebração anual das pessoas bissexuais, aumentando a consciência sobre as dificuldades pelas quais essa comunidade ainda passa. Nos 27 países pesquisados, a Pesquisa Global do Orgulho LGBTQ+ 2021 revela que 4% das pessoas se identificaram como bissexuais.
Bissexualidade x pansexualidade
Ainda existe um debate contínuo sobre as definições de bissexualidade e pansexualidade. Ainda que as duas orientações sexuais compartilhem muitas semelhanças, elas não são exatamente iguais.
A bissexualidade refere-se a pessoas que se atraem romanticamente e sexualmente por dois ou mais gêneros. Diferente da pansexualidade, pessoas bissexuais nem sempre se atraem por todos os gêneros, enquanto para pansexuais o gênero não importa. O gênero é um fator mais relevante na bissexualidade. É importante destacar que cada pessoa bi pode definir a bissexualidade de forma diferente.
A pansexualidade descreve pessoas que amam e se atraem pelas pessoas independentemente de seu gênero. A identidade de gênero não é um fator importante. Ainda assim, o tipo de atração que você sente por um gênero específico pode variar.
Ambas as definições, tanto a de bissexualidade quanto a de pansexualidade, coincidem em diversos aspectos. No entanto, ainda assim é importante que ambas as identidades tenham seu espaço, sem que uma invalide ou se sobreponha à outra. Cada identidade sexual é válida. Para consultar uma lista mais detalhada de identidades de gênero e orientações sexuais, visite o nosso blog.
Entrevista com membros
Conversamos com dois membros especiais da família Vivuna, Nik Ward, nosso Orientador de Consultas Sênior, e Stacey McDermott, nossa Líder Global de Pessoal.
Stacey McDermott

Stacey
: Assumir-me como bissexual tem sido um processo longo. Eu sentia essas emoções por todos os gêneros, mas ainda não sabia exatamente o que era. Eu não admiti isso totalmente até começar a sair com as pessoas. Mas nunca saí de fato do armário. As pessoas apenas presumiam a verdade e ninguém me questionava. Mesmo na família, quando eu mencionava que estava saindo com uma mulher, ninguém se importava. Eu nunca me assumi formalmente, apenas pensei: “Eu sou assim, e não vou dar a oportunidade a ninguém de me questionar.”
Foi só quando entrei para a vida corporativa que começaram a me questionar muito, e as coisas ficaram desconfortáveis. Acho que era também pelo ambiente. Era um lugar muito masculino, hierárquico e patriarcal. Eu não podia ser eu mesma.
Eu me identifico como bissexual e pansexual com orgulho. Para mim, a bissexualidade não inclui só homens e mulheres. Eu não me apaixono pelo gênero, me apaixono pelas pessoas. Eu acho que as pessoas se confundem sempre com isso porque ficam presas naquela visão binária de gênero. A identidade de gênero é secundária pra mim na hora de me apaixonar por alguém.
Stacey disse que se sente representada pela série de TV canadense Schitt’s Creek, na qual um dos personagens principais, David Rose, se revela como pansexual. “Eu chorei porque nunca tinha visto ninguém descrever as coisas de uma forma que me fizesse pensar: é exatamente assim. Eu gosto do vinho e não do rótulo”, explica Stacey.
Nik Ward

Enquanto Stacey nunca teve um momento formal de saída do armário, Nik internalizou os sentimentos e a pressão dos amigos, fazendo com que ele só se assumisse na casa dos 20 anos.
Nik: Para mim, levou muitos anos para me encontrar. Eu só consegui começar a questionar essa parte da minha identidade já aos meus 20 e poucos anos. Eu estudei em uma escola católica, que não era um lugar muito bom para explorar minha sexualidade. Depois que entrei na universidade, muitos dos meus grupos de amizade eram da comunidade queer. Ainda assim, demorei para me apresentar como bissexual.
Nik se sentiu pressionado pelos amigos para sair do armário, já que todos já achavam que ele era queer. Isso acabou aumentando suas dúvidas e o impediu de se assumir até completar 25 anos. Nesse período, ele também começou a usar um binder e a se questionar sobre sua identidade de gênero.
Nik: Antigamente, eu me identificava como mulher cisgênero. Meu relacionamento com a sexualidade mudou depois que me assumi como uma pessoa transmasculina não binária. Depois que me assumi como não binário, me senti muito mais confiante quanto à minha sexualidade. Eu percebi como as pessoas passaram a me tratar de forma diferente. Ver como as pessoas respondiam à minha masculinidade foi algo transformador para minha sexualidade. Isso também modificou a maneira como as mulheres e os homens se relacionavam comigo.
Eu descreveria a minha bissexualidade como uma anarquia das sexualidades. Com anarquia, quero dizer a ausência do desejo de controlá-la. Eu não vou me rotular permanentemente ou tentar provar minha identidade para ninguém. Acho que as pessoas se sentem desconfortáveis com a bissexualidade exatamente porque ela é difícil de categorizar – é algo que é diferente para cada pessoa.
Nik neste momento namora um homem bissexual. Ele se sente muito confortável com seu gênero e sexualidade relacionando-se com alguém que também faz parte da comunidade LGBTQ+.
Invisibilidade bissexual
Um dos problemas mais recorrentes que as pessoas bissexuais ainda enfrentam é a invisibilidade. Infelizmente, esse problema também ocorre dentro da comunidade LGBTQ+. Você pode até achar que se interessar por mais de um gênero aumentaria suas chances de encontrar alguém. Porém, a bifobia também é algo muito comum nos namoros e paqueras. Algumas pesquisas mostram que algumas pessoas heterossexuais, assim como algumas pessoas queer, têm relutância em se relacionar com bissexuais.
A invisibilidade bissexual é um problema real. Embora mais pessoas se identifiquem como bissexuais do que como lésbicas, suas identidades muitas vezes são invalidadas. Vivemos em uma sociedade centrada nos homens, onde a preferência pelos homens se sobrepõe às outras. Portanto, homens bissexuais muitas vezes são vistos como gays, enquanto as mulheres bissexuais são percebidas como heterossexuais. Isso invalida e apaga a bissexualidade como um todo.
Esta ideia nociva também é reforçada pela mídia e pelo que vemos na TV; um exemplo disso é Carry Bradshaw, de “Sex and the City”, que diz que a bissexualidade é “apenas uma escala no voo para a Cidade do Arco-íris” ao falar de um homem bissexual. “Existe muita bifobia que as pessoas bissexuais enfrentam, como essa ideia falsa de que um homem não pode ser bissexual, que ele é apenas um gay que ainda não se assumiu. Os bissexuais existem e ainda enfrentam grande invisibilidade. É muito frustrante”, disse-nos Stacey.
Nik: Existe uma pressão, se você se identifica como bissexual, de provar a sua identidade mostrando que você já se relacionou com diferentes gêneros. Fomos ensinados a policiar as pessoas. Questioná-las para que provem a bissexualidade equivale a policiá-las. É mesmo um papel de polícia, de tentar encontrar provas da bissexualidade de alguém.
Eu sentia essa pressão porque ainda não tinha me relacionado com uma mulher, então como poderia provar que sou bi? É uma expectativa injusta que foge do propósito, já que o motivo de se ter uma sexualidade aberta é exatamente a liberdade de ser quem você decidir. Eu só acho que isso deveria ser irrelevante. Eu penso que as coisas seriam muito mais fáceis se as pessoas se importassem menos com quem estamos nos relacionando e focassem na pessoa que somos.
Assim como o Nik explicou, muita gente ainda acha difícil entender a complexidade da sexualidade humana. A orientação sexual, assim como a identidade de gênero, não é uma escolha binária entre gay e hétero. É um espectro. E, exatamente por estar nesse espectro, é que se torna mais difícil categorizar a bissexualidade. Porém, ela é bela justamente por não se definir pelas limitações da binariedade de gênero e sexualidade.
Mulheres bissexuais estão mais propensas a sofrer violência
Além da invisibilidade, a Força-Tarefa LGBTQ Nacional relatou que as mulheres bissexuais estão mais propensas a sofrer violência física e sexual por um parceiro íntimo, em comparação às lésbicas e às mulheres heterossexuais. 61,1% das mulheres bi já sofreram violência física e sexual de um parceiro.
Alguns estudos também sugerem que as pessoas bissexuais estão mais propensas a apresentar problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, em comparação a outros membros da comunidade LGBTQ+.
Ainda que um relacionamento percebido como heterossexual possa trazer determinados benefícios e privilégios, lamentavelmente, a ameaça de violência é uma realidade prevalente entre as mulheres bissexuais. É importante tornar essa realidade mais visível para combater e eliminar a bifobia.
Desconstruindo mitos sobre as pessoas bissexuais
- Pessoas bissexuais em relacionamentos que parecem heterossexuais na prática são heterossexuais. Esse mito não só é completamente falso, como também invalida e apaga as identidades bissexuais. Você ainda é bissexual, mesmo se estiver namorando uma pessoa do gênero oposto. Se um homem bi namora uma mulher bi, isso não torna nenhum dos dois menos bissexual. Quando é questionada sobre os equívocos recorrentes a respeito dos bissexuais, Stacey se lembra de como as pessoas perguntavam: “Você é casada, mas é bissexual. Como assim? É o velho estereótipo. Eu me apaixonei por um homem, mas também poderia ter facilmente me apaixonado por uma mulher ou por uma pessoa não binária.”
- A bissexualidade exclui pessoas trans. Este é um dos mitos mais prejudiciais. A bissexualidade sempre incluiu pessoas trans. Se uma pessoa bissexual se interessa por mulheres, isso inclui tanto mulheres cis quanto trans.
- Pessoas bissexuais são insaciáveis e egoístas. Isso é simplesmente falso. Ser atraído por mais de um gênero não torna ninguém insaciável, assim como ser atraído por um único gênero não torna ninguém menos egoísta. “Eu já ouvi muito a frase ‘você é insaciável’, o que é bastante frustrante. Tenho certeza de que muitos bissexuais já passaram por essa situação. Presumem que as pessoas bi são hipersexuais. Existe essa ideia de que as pessoas bi estão dispostas a tudo, mas, no meu caso, não sou nada assim”, explicou Stacey.
- Elas são todas confusas. As pessoas bissexuais não estão confusas. Sabem quem são e o que desejam. Se estão confusas, com certeza não é por conta da sua sexualidade.
- Elas tem atração por qualquer um. Esse mito não faz o menor sentido, já que ninguém presumiria que uma mulher heterossexual sente atração por todos os homens. No entanto, muita gente pensa isso sobre as pessoas bissexuais. Sentir atração por mais de um gênero não significa se atrair por todas as pessoas. Todos temos nossos tipos, e o mesmo vale para as pessoas bissexuais.
A bissexualidade é uma identidade muito real. Todas as orientações sexuais são. Ainda que as pessoas bissexuais não se conformem às ideias binárias de sexualidade, suas experiências não são, de forma nenhuma, menos válidas. A bissexualidade, junto com a pansexualidade, deve ser celebrada por sua capacidade de amar para além do gênero.