Como mulher trans operada, quando olho para o passado, antes da minha transição, antes da minha cirurgia genital transfeminina, tudo faz muito mais sentido do que fazia na época. Aos meus 20 e poucos anos eu não pensava muito nisso, mas sabia que algo estava fundamentalmente errado (geralmente depois da relação sexual, quando me deitava).
Mesmo em relacionamentos amorosos, eu às vezes sentia uma culpa persistente, talvez até vergonha, logo após o orgasmo. Isso não é incomum. Estudos como “Sexual Experience, Sex Guilt, and Sexual Moral Reasoning [Experiência Sexual, Culpa Sexual e Raciocínio Moral Sexual]” (Gerrard & Gibbons, 1982) destacam como as crenças internalizadas podem influenciar nossa resposta sexual. Pesquisas como “Understanding the Emotion of Shame in Transgender Individuals [Entendendo a Emoção da Vergonha em Indivíduos Transgênero” em Life Sci Soc Policy 14, 23 (2018) analisam como a disforia e o estigma social podem se manifestar durante momentos íntimos. Após a cirurgia de redesignação genital, essa sensação desapareceu e, pela primeira vez, me senti confortável no meu corpo.
Fase pré-operatória: disforia de gênero e sofrimento
Mesmo em relacionamentos com afeto, eu sempre me sentia desconectada. Sentia-me desajeitada, às vezes envergonhada, e constantemente distante do meu corpo durante o sexo. Isso mudou com a cirurgia de afirmação de gênero, que me trouxe a autoconfiança e conforto corporal que eu esperava há tanto tempo.
Tendo crescido em um ambiente familiar tradicional, me faltava vocabulário para explicar minhas experiências. Meu desconforto não era apenas com a forma como os outros me viam, mas como eu mesma me via. Quando fiz minha transição, passei a usar roupas femininas, mas ainda era percebida com curiosidade ou objetificação, não com respeito e autenticidade.
Por que escolhi a cirurgia
Minha decisão de fazer a cirurgia de afirmação de gênero não foi motivada pela vontade de melhorar minha vida sexual, mas para alinhar meu corpo físico com quem eu sou. Um estudo publicado na JAMA Surgery aponta que pacientes trans que passam por cirurgias afirmativas têm 44% menos chance de terem pensamentos suicidas e 42% menos chance de passarem por sofrimento psicológico. Alcançar essa serenidade mental era meu único objetivo.
Minha médica disse que eu provavelmente continuaria tendo relações sexuais após a cirurgia. Isso me trouxe algum conforto, mas não era a motivação principal. O que eu queria era poder nadar sem vergonha, namorar sem medo e viver sem o receio constante de ser “descoberta”. Eu precisava de uma sensação de completude.
Escolhendo o que é melhor para mim
Decidi fazer a cirurgia pelo sistema público de saúde do Reino Unido. Esperei um pouco, mas pelo menos não precisei pagar nem lidar com o estresse de viajar para o exterior. Algumas amigas tiveram boas experiências com cirurgiões na Tailândia, mas para mim, a continuidade do tratamento e estar perto de casa era o melhor.
Esse tempo de espera me permitiu me preparar emocionalmente. Sou grata por isso, pois de forma subconsciente, eu sabia que essa decisão não se resumia ao físico: tratava-se do meu bem-estar emocional a longo prazo. Um artigo de 2022 publicado pela Annals of Plastic Surgery confirma que a cirurgia afirmativa reduz a disforia de gênero e aumenta a satisfação corporal em pacientes transfemininas.
A vida após a operação: uma transição também na confiança
Um dos aspectos mais libertadores da cirurgia foi a confiança que ela me trouxe, não só no contexto de namoro, mas em todas as situações da vida. Passei a me sentir mais confortável comigo mesma, tanto sozinha quanto em público.
A recuperação, no entanto, levou muitos meses. Durante esse período, eu não estava pronta para a intimidade. Tocar meu próprio corpo se tornou um processo de redescoberta, livre de compulsão. Isso é bastante comum. Segundo a publicação The Journal of Sexual Medicine, as pessoas trans podem ter respostas sexuais e emocionais muito diferentes após a cirurgia, provando que cada processo de cura é único.
Namoro e revelação
Namorar após a cirurgia também apresenta desafios. Não conto minha história logo de início. Só faço isso quando sinto confiança e quando a outra pessoa parece realmente interessada em me conhecer melhor.
Quando conto, tento ser direta e sincera. Digo que estou saudável e feliz, e que estou sempre disposta a responder perguntas feitas com respeito. Na minha experiência, essa honestidade ajuda a trazer leveza desde o começo do relacionamento.
Uma abordagem pragmática à intimidade
A cirurgia não fez com que a intimidade se tornasse perfeita automaticamente. Assim como outras pessoas, encontrei parceiros com inseguranças. Alguns não sabiam lidar com meu passado, outros foram acolhedores desde o início. Para mim, a intimidade se constrói com segurança e comunicação emocional. Quando esses pilares estão presentes, o toque físico é mais prazeroso e satisfatório. Um estudo publicado no PMC (2022) indica que pessoas trans relatam maior satisfação sexual após a cirurgia, especialmente quando os relacionamentos são baseados em respeito e confiança. Mais do que uma transformação física, a cirurgia afirmativa não resolveu todos os meus problemas; porém, ela abriu espaço para que eu me aceitasse por completo.
A cirurgia reforçou meu senso de identidade, impactou como me relaciono com o mundo e me permitiu formar vínculos mais verdadeiros. Ser uma mulher trans operada não é só uma questão física. É estar completa, segura de si e em equilíbrio. Segundo a Cleveland Clinic, o índice de satisfação entre pacientes é excelente. Podem existir complicações, mas os benefícios são surpreendentes. Assim, a cirurgia não pode ser vista como uma solução mágica. Porém, no meu caso, foi a base para me tornar quem eu sempre quis ser, em paz comigo mesma e pronta para me relacionar com outras pessoas de forma genuína.
Acredito que ser realista, sem deixar de buscar o melhor de si, é o caminho para a felicidade e a satisfação em todas as áreas da vida.