Quantas pessoas fazem destransição? Um guia sobre a realidade dos arrependimentos trans

Sumário

Nos últimos anos, o tema da destransição ganhou destaque na mídia e foi alvo de intenso debate político. Frequentemente mal compreendida ou distorcida, a destransição é um fenômeno muito mais complexo do que normalmente se apresenta. Fazer destransição não significa automaticamente arrependimento, nem invalida a identidade de pessoas trans que mudam de trajetória. Com as novas pesquisas disponíveis, especialmente a revisão sistemática de 2024 de Eva Feigerlova, podemos entender melhor essa questão e combater os mitos com base em evidências.

O que a destransição realmente significa?

Destransição se refere ao processo de parar, reverter ou pausar aspectos da transição de gênero. Isso pode incluir a interrupção da terapia hormonal (como testosterona ou estrogênio), o retorno ao nome ou gênero designado ao nascer, ou até mesmo a reversão de algumas cirurgias realizadas. Para outras pessoas, pode significar apenas uma mudança na forma como se apresentam socialmente.

É importante frisar que destransição não é sinônimo de arrependimento. As razões variam bastante, e muitas pessoas acabam retomando a transição mais tarde, quando têm acesso a um ambiente mais acolhedor.

Quantas pessoas transgênero fazem destransição?

A resposta não é simples, pois o termo “destransição” tem definições variadas em diferentes estudos. Mas graças à revisão de Feigerlova (2024), agora temos a análise estratificada mais abrangente realizada até hoje. Ela revelou que:

  • 0,8% a 7,4% mudam de ideia antes de iniciar bloqueadores de puberdade (GnRHa).
  • 1,6% a 7,6% interrompem o tratamento com GnRHa, mas apenas 1% a 3,8% fazem isso por não quererem mais fazer transição.
  • 1,6% a 9,8% interrompem a terapia hormonal, mas só 0,5% a 9,8% mencionam dúvidas sobre sua identidade ou pressões externas como motivo.

Interromper o tratamento não é o mesmo que fazer destransição. Muitas pessoas param por efeitos colaterais dos tratamentos, falta de acesso ou motivos financeiros, não por arrependimento.

Outros estudos nos permitem uma melhor compreensão:

Esses dados sugerem que a destransição é rara e que o arrependimento é ainda mais incomum.

Por que as pessoas fazem detransição?

Os motivos são diversos e frequentemente mal compreendidos. Segundo a revisão sistemática de 2024 e pesquisas anteriores:

Fatores externos:

  • Pressão social e familiar (até 36%)
  • Discriminação no trabalho ou no atendimento médico
  • Rejeição religiosa ou cultural

Fatores externos:

  • Revisão pessoal da identidade de gênero
  • Traumas não resolvidos ou desafios de saúde mental
  • Preocupações com a saúde ou insatisfação com resultados médicos

Identidades não binárias e classificações erradas

O sistema médico ainda falha em acolher adequadamente as pessoas não binárias. Muitas acabam sendo direcionadas para vias binárias de transição. Quando posteriormente ajustam seus objetivos, isso é erroneamente classificado como destransição. Esses não são casos de arrependimento – são exemplos de pessoas encontrando o caminho certo para si mesmas.

O mito do arrependimento em massa

A alegação de que “80% das crianças trans desistem” vem de estudos desacreditados. Com frequência, presumiu-se que os participantes cujo acompanhamento não pôde ser feito nas pesquisas voltaram a se identificar com o gênero designado ao nascer.

Na realidade, crianças com disforia de gênero persistente e consistente têm altíssima probabilidade de continuar sua transição na vida adulta.

O que dizem as pesquisas?

Embora mais estudos de longo prazo sejam necessários, as melhores evidências atuais, como a revisão de Feigerlova (2024), indicam:

  • A taxa de arrependimento entre pessoas trans é de no máximo 3% e é geralmente temporária.
  • A maioria das pessoas que fazem destransição o fazem por pressões externas, não por arrependimento.
  • A retransição é comum quando essas pressões desaparecem.

Essas conclusões refutam a ideia de que a destransição é um fenômeno generalizado ocasionado por transições errôneas. Elas apontam, em vez disso, para problemas estruturais, como a falta de acesso aos cuidados afirmativos e ao apoio social.

Acesso a cuidados de afirmação de gênero com ajuda profissional

Como podemos apoiar quem passa pela destransição?

As pessoas que passam pela destransição enfrentam um estigma único. São ignoradas por parte da comunidade trans e, ao mesmo tempo, instrumentalizadas por ativistas anti-trans. Essa marginalização dupla pode dificultar sua busca por apoio.

Para melhorar esse cenário, é preciso:

  • Vias de cuidados inclusivos, que apoiem diferentes jornadas de gênero.
  • Coleta de dados consistente, com definições claras.
  • Empatia acima da política. As pessoas que passam pela destransição não devem ser usadas para atacar os direitos trans.

A destransição não é prova de que a transição não funciona. Quem passa por ela está lidando com sua identidade em um mundo complexo e merece o mesmo respeito, cuidado e autonomia que todo mundo.

Conclusão: seguindo adiante com empatia

A destransição não é um fracasso. Ela faz parte de um amplo espectro de experiências de gênero. A maioria das pessoas trans está contente com a decisão de fazer a transição. Quem não está também merece empatia, cuidado e espaço para conversar com honestidade.

Precisamos desconstruir mitos, evitar polarizações e apoiar a todos, seja na transição, na destransição ou em qualquer ponto desse caminho.

Referências

Feigerlova E. Prevalence of detransition in persons seeking gender-affirming hormonal treatments: a systematic review. J Sex Med. 9 de janeiro de 2025; 22(2):356-368. doi: 10.1093/jsxmed/qdae186. PMID: 39724926.

Turban et al. (2021) Factors Leading to “Detransition” Among Transgender and Gender Diverse People in the United States: A Mixed-Methods Analysis DOI:10.1089/lgbt.2020.0437

Littman, L., O’Malley, S., & Bailey, J. M. (2024). Detransition and desistance among previously trans-identified young adults. Archives of Sexual Behavior, 53(1), 57–76. DOI: 10.1007/s10508-023-02716-1

Glintborg D, Møller JK, Rubin KH, Lidegaard Ø, T’Sjoen G, Larsen MJØ, Hilden M, Andersen MS. Gender-affirming treatment and mental health diagnoses in Danish transgender persons: a nationwide register-based cohort study. Eur J Endocrinol. 1 de setembro de 2023; 189(3):336-345. doi: 10.1093/ejendo/lvad119. PMID: 37672620.

World Professional Association for Transgender Health [WPATH] (2011), Standards of Care for the Health of Transsexual, Transgender, and Gender Nonconforming People: Autor. https://www.wpath.org

Compartilhar este artigo

Decidiu iniciar a TRH?

A Vivuna oferece:

Receba terapia hormonal personalizada para atender às suas necessidades únicas.

Postagens Relacionadas